Neste ano estou tendo a feliz experiência de descobrir novos horizontes na arte do canto. Conheci pessoas que vêem essa arte de uma maneira integrada, usando o corpo como meio de ajudar a criar o mundo sugerido pela música. Ópera é uma forma de teatro musical, onde os cantores interpretam personagens que têm seu papel em uma trama. Logo, é preciso ser também ator, pois o público sentado nas poltronas está ouvindo E vendo aquela peça que se desenrola no palco. Acho que um bom trabalho corporal e cênico é fundamental para envolver o público na história.
O que acabei de dizer é unanimidade em meio àqueles com quem tenho trabalhado, então gostaria de aproveitar esse texto para dizer algo diferente. Eu ainda não sei bem o que já foi pensado sobre o corpo na arte, tenho muita vontade de conhecer Grotowski, Meyerhold, Graham a fundo, mas ainda não tenho familiaridade com esse assunto. Porém, observando tenho notado que o corpo pode ser abordado com nuances diferentes.
Hoje há a forte tendência nas montagens de ópera na Europa, principalmente Alemanha, de inovar na concepção de ópera como espetáculo teatral, buscando sempre novas soluções cênicas. Há uma forte preocupação em fazer as obras do repertório adquirirem relevância nos dias de hoje. Mas muitas vezes quando eu fecho os olhos a mensagem simplesmente não chega. Ao ver o cantor ele parece envolvente, mas ao ouví-lo falta vida em sua interpretação. Muitas dessas montagens são, na minha opinião, um pouco como a Lady Gaga, música para os olhos.
Experimentando um trabalho corporal nesses últimos tempos tenho percebido que corpo não é apenas um gráfico, não é seu aspecto visual o mais interessante, mas sim seu caráter sensível. Meu corpo não é formado apenas por ossos e músculos, ele é feito também de coisas impalpáveis, de emoção, de subjetividade, de alma. Portanto não faz sentido ver voz e corpo como coisas distintas, a voz é pura vibração corporal, é o corpo se irradiando. Nem separar o aspecto musical do corporal, pois música é pulsação, gesto, auto-expressão.
Digo isso porque a nova geração de cantores já tomou consciência do quanto elementos teatrais podem enriquecer a arte de cantar, especialmente ópera, como criar um personagem, achar sua maneira de se mover, interagir em cena, etc. Mas é preciso também atuar com a voz, comunicar com o som, que pode chegar a lugares do corpo, do ser, que o visual não alcança. Não esqueçamos que o trabalho de construir ferramentas vocais e musicais é indispensável e é também um processo do corpo. E nada disso adianta sem o principal dos trabalhos corporais: sentir.
Não seria desperdício deixar de aproveitar o poder catártico do som? Uma arte que se dá no tempo, que só existe na memória, que não tem significado, que apenas insinua, uma arte tão abstrata e misteriosa, sempre abrindo possibilidades.
Abaixo vai um video da cantora Billie Holiday, que canta com corpo sem dar um passo. Nem precisa abrir os olhos.
terça-feira, 9 de novembro de 2010
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belas observações!
ResponderExcluirtem um documentário maravilhoso em que lavant fala do corpo (doc em pdf explicando-o): http://www.capaupire.com/userfiles/Duende_au_Corps.pdf
http://en.wikipedia.org/wiki/Duende_%28art%29 aqui o conceito de duende.
nas palavras de lorca, "a sort of corkscrew that can get art into the sensibility of an audience... the very dearest thing that life can offer the intellectual."
um assunto que muito me interessa.
beijos,
jeane