quinta-feira, 17 de maio de 2012

DIA INTERNACIONAL CONTRA A HOMOFOBIA


-DIA INTERNACIONAL CONTRA A HOMOFOBIA-

O Brasil ainda é um país com altos índices de crimes contra homossexuais e às vezes parece que damos passos para trás em relação à tolerância. Espero que chegue logo o dia em que ninguém se incomodará com a maneira de cada um de encontrar sua felicidade.
Infelizmente muitos, ainda cegos, não veem que suas crenças não são verdade absoluta, que não há respostas definitivas para as questões humanas. Ao invés de nos sentirmos ameaçados ao nos depararmos com alguém que vive uma outra verdade, por que não o acolhemos? Certamente há algo belo e comovente nesse outro caminho de buscar a felicidade. Mas para isso é necessário calar um pouco e ouvir, e esse é o grande exercício que ao meu ver a maioria não está disposta a fazer: ouvir o outro sem pré-conceitos. Essa é uma das atitudes mais ameaçadoras para uma pessoa, pois somos obrigados a sair de nosso isolamento, onde somos fechados em nossas verdades rígidas e correr o risco de surgirem questionamentos, correr o risco de nos identificarmos e nos colocarmos no lugar do outro e, então, talvez aquelas verdades sólidas comecem a ruir e nosso porto seguro desmorone sob nossos pés. Ouvir é perturbador demais, transformador demais. Preferimos então calar o outro, destruir sua voz para que ela não ecoe no mundo semeando reflexão por onde passar. Refletir pode levar a discordar, à discórdia, ameaçando a "harmonia"  mórbida e pálida dos homogênicos, onde os homossexuais não tem vez. Só que há ainda os que tem um pouco mais de consciência do politicamente correto e ficam em silêncio, não se colocam contra, -"Eu tenho vários colegas gays", mas no fundo seu silêncio é tão frio e violento quanto os discursos de intolerância mais inflamados, pois em momento algum há uma sincera abertura para ouvir e se identificar com o outro, para questionar ou ao menos relativizar suas verdades. Seu silêncio não é o daquele que ouve de coração aberto, é mais uma recusa politicamente correta a ter compaixão.

Mas não adianta, o sol vai voltar, a escuridão não vai durar muito, pois as vozes não vão se calar. Ainda é preciso gritar, mas sei que logo será apenas necessário olhar nos olhos e sussurrar, e eles vão ouvir com o coração aberto, sem todo esse medo que tem agora. Sem medo de abrir a mente, de romper com falsas certezas que atam e isolam o homem. Afinal, tudo o que há é apenas uma longa busca, tateando no escuro, da qual todos fazemos parte. Todos estamos perdidos, desejando que o sol nos aqueça de novo pela manha, desejando o contato com o outro, ansiando pelo dia em que nós, os bem aventurados, nos uniremos novamente. Gritamos nossas dores dilacerantes sem saber de fato se somos ouvidos e num ato de comovente fragilidade revestimos as coisas às quais damos importância de um manto sagrado, só para apaziguar a dúvida: alguém ouve nossas súplicas? Sem respostas, sem certezas, ainda somos intensos, fantasminhas claros de amor, sem importar o gênero.

Morgen!
Und morgen wird die Sonne wieder scheinen
und auf dem Wege, den ich gehen werde,
wird uns, die Glücklichen sie wieder einen
inmitten dieser sonnenatmenden Erde...
und zu dem Strand, dem weiten, wogenblauen,
werden wir still und langsam niedersteigen,
stumm werden wir uns in die Augen schauen,
und auf uns sinkt des Glückes stummes Schweigen...

Amanhecer!
E pela manhã o sol voltará a brilhar
e no caminho que percorro
nós, os bem aventurados, nos uniremos novamente
no seio dessa terra que respira a luz do sol...
e na praia, ampla, de ondas azuis,
calma e vagarosamente desceremos,
silenciosamente nos olharemos no olhos
e sobre nós cairá o mudo silêncio da felicidade...

terça-feira, 10 de abril de 2012

Sonata

 Quando a música termina fica a sensação de que ela durou apenas um segundo. Tantos compassos, a expectativa logo antes do início, aguardando em silêncio o primeiro som, retendo a respiração para focar a atenção. Cada nota vem com a fascinante sensação de surpresa, parece que cada gesto, por mais singelo que seja, tem a capacidade de me encher de empolgação. Ah, essa dúvida de não saber o que virá! A qualquer momento o discurso pode tomar um rumo inesperado e observo cada nuance mais insignificante com tanta atenção, chego a acreditar que sou eu quem está conduzindo o andamento. Cada silêncio parece durar um movimento inteiro! Ainda não aprendi a aceitar que só posso ouvir e aguardar.
 E sem perceber o tema já foi apresentado, parece que entendi a proposta, mas então começa a verdadeira viagem. As cores vão se tornando complexas, o que eu achava que já tinha conhecido começa a se fragmentar, a apresentar suas potencialidades. Inicialmente tenho que fazer um esforço para acompanhar, essa complexidade causa uma certa estranheza, me tira da zona de conforto do ideal harmônico. Os atritos dissonantes que começam a se apresentar requerem uma força de vontade; ainda bem que foi agora, se fosse lá no início teria espantado qualquer um. Eu chego a me perguntar, por que me forçar a acompanhar essa tensão? Um segundo que perdi o foco e pronto, nada mais parece fazer sentido.
 Por que eu continuei? Parecia valer a pena ver onde isso ia dar. E valeu mesmo. Depois de tantas voltas, de chegar até a dispersar a atenção, a quase perder o interesse, eis que aquela sensação tão linda da descoberta parece se fazer presente de novo! Parece a tão esperada volta para casa! A volta ao ventre, à morada do Senhor, se sentir vivo de novo. Mas após todo o desenvolvimento, todos os cantos por onde o acompanhei de perto, às vezes não com toda a atenção e esforço merecidos, eu já mudei. Ao menos juro que fiz o meu melhor. Como poderia ouvir como no início depois de tudo o que se passou? Agora é melhor, tudo faz sentido, forma uma grande figura e é fascinante uma obra tão engenhosa. Parece que cada nota só podia estar onde de fato esteve, tudo esteve sempre em seu lugar.
 Em uma fração de segundo é possível resgatar toda a jornada, desde a expectativa, durante o silêncio que antecedeu o primeiro gesto. E é o sinal de que o final se aproxima. A conclusão vai sendo preparada, é tão forte a iminência da cadência final. Que pena que tem que acabar! Só resta ir me arrumando na cadeira, voltando da viagem. A sala já está repleta do som de conversas, tosses, cadeiras rangendo, passos. Mas tudo ainda ecoa dentro da minha cabeça, em uma fração de momento, do começo ao fim ao começo, acho que uma resistência boba de deixá-lo ir embora.
Acabou.

Ah, se fosse possível simplesmente apertar o "play" de novo. E de novo e mais tantas outras vezes, até enjoar!!! Mas seria a segunda vez, já seria diferente. Eu já seria outro. E você também.
Fique bem :-)
Saiba que ao dormir você continua soando aqui dentro.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Descobrindo o corpo

  Neste ano estou tendo a feliz experiência de descobrir novos horizontes na arte do canto. Conheci pessoas que vêem essa arte de uma maneira integrada, usando o corpo como meio de ajudar a criar o mundo sugerido pela música. Ópera é uma forma de teatro musical, onde os cantores interpretam personagens que têm seu papel em uma trama. Logo, é preciso ser também ator, pois o público sentado nas poltronas está ouvindo E vendo aquela peça que se desenrola no palco. Acho que um bom trabalho corporal e cênico é fundamental para envolver o público na história.
  O que acabei de dizer é unanimidade em meio àqueles com quem tenho trabalhado, então gostaria de aproveitar esse texto para dizer algo diferente. Eu ainda não sei bem o que já foi pensado sobre o corpo na arte, tenho muita vontade de conhecer Grotowski, Meyerhold, Graham a fundo, mas ainda não tenho familiaridade com esse assunto. Porém, observando tenho notado que o corpo pode ser abordado com nuances diferentes.
  Hoje há a forte tendência nas montagens de ópera na Europa, principalmente Alemanha, de inovar na concepção de ópera como espetáculo teatral, buscando sempre novas soluções cênicas. Há uma forte preocupação em fazer as obras do repertório adquirirem relevância nos dias de hoje. Mas muitas vezes quando eu fecho os olhos a mensagem simplesmente não chega. Ao ver o cantor ele parece envolvente, mas ao ouví-lo falta vida em sua interpretação. Muitas dessas montagens são, na minha opinião, um pouco como a Lady Gaga, música para os olhos.
    Experimentando um trabalho corporal nesses últimos tempos tenho percebido que corpo não é apenas um gráfico, não é seu aspecto visual o mais interessante, mas sim seu caráter sensível. Meu corpo não é formado apenas por ossos e músculos, ele é feito também de coisas impalpáveis, de emoção, de subjetividade, de alma. Portanto não faz sentido ver voz e corpo como coisas distintas, a voz é pura vibração corporal, é o corpo se irradiando. Nem separar o aspecto musical do corporal, pois música é pulsação, gesto, auto-expressão.
  Digo isso porque a nova geração de cantores já tomou consciência do quanto elementos teatrais podem enriquecer a arte de cantar, especialmente ópera, como criar um personagem, achar sua maneira de se mover, interagir em cena, etc. Mas é preciso também atuar com a voz, comunicar com o som, que pode chegar a lugares do corpo, do ser, que o visual não alcança. Não esqueçamos que o trabalho de construir ferramentas vocais e musicais é indispensável e é também um processo do corpo. E nada disso adianta sem o principal dos trabalhos corporais: sentir.
  Não seria desperdício deixar de aproveitar o poder catártico do som? Uma arte que se dá no tempo, que só existe na memória, que não tem significado, que apenas insinua, uma arte tão abstrata e misteriosa, sempre abrindo possibilidades.


    Abaixo vai um video da cantora Billie Holiday, que canta com corpo sem dar um passo. Nem precisa abrir os olhos.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

E você pode dançar! Madonna



  A batida vem, contagiando, irresistível! "Venha se juntar à minha festa", diz Madonna e você já começou a dançar sem perceber. Se não começou porque tem gente perto garanto que está morrendo de vontade. Não é um convite, você está convocado a se juntar à Celebration. O ambiente de uma balada é evocado tanto pelo estilo musical quanto pela situação de paquera ilustrada pela letra. É música para dançar e na minha opinião a grande sacada da carreira da Madonna foi justamente ter percebido o poder da batida, que faz o corpo se lembrar da alegria de se sentir vivo, pulsante. Mas um detalhe me chamou muito a atenção no video que ilustra a canção, alguém reparou que a música tem como título "Celebração", mas a Madonna não sorri em momento algum?
  "Eu já não te vi em algum lugar antes? Você parece familiar... Quer dançar? É, acho que eu é que não tô te reconhecendo vestindo roupas, hahaha. O que você tá esperando?!" ela fala durante a música, ao invés de cantar, o que causa um efeito interessante, cool, cheio de atitude, um clichê pop que a própria Madonna inventou. "Garoto, você tem uma reputação, mas você vai ter que provar! Eu vejo um pouco de hesitação, será que eu vou ter que te mostrar que se isso te faz sentir bem, fique a postos, entre na batida, garoto, é pra isso que ela serve", segue a letra. É o tipo de situação que tem mesmo tudo a ver com a balada! Um close, com muito carão. Bem, para aqueles não muito familiarizados com tais expressões, é quando você sai de noite e vê todas aquelas pessoas cheias de "atitude", super descoladas, com cara de capa da Vogue. Strike the pose! E fazer pose dá trabalho, não sobra mesmo muita energia para sorrir, para aproveitar de verdade.  É uma Celebration, mas a mulher de roupa cinza e preta (!), óculos escuros e ar distante do vídeo não parece estar se divertindo nessa festa bem produzida, porém um tanto frívola.




  Mas nos anos 1980 ela fazia uma festa contagiante de verdade! Enquanto em Celebration celebrar é um fim em si, celebra-se a própria celebração, em Into the groove festeja-se a música e seu poder libertador, transformador, dançamos por inspiração e pela alegria do encontro e logo na primeira frase da música todos somos encorajados a participar dessa festa! A estética da música, sua representação visual e a letra têm uma alegria inocente que infelizmente está totalmente "out" hoje. A situação também é uma paquera na baladamas a abordagem é outra. A mulher ícone que cobra atitude e não admite insegurança já foi uma garota de carne e osso que admitia estar cansada de se sentir sozinha e pedia provas de amor.
 Amei o show no Morumbi!
 
Into the groove
"E você pode dançar
por inspiração.

Música pode ser tamanha revelação
Dançando por aí você sente a doce sensação.
Nós podemos ser amantes se o ritmo estiver certo
Eu espero que esse sentimento nunca termine essa noite.

Só quando estou dançando consigo me sentir tão livre!
De noite eu tranco as portas onde ninguém pode ver.
Cansei de dançar aqui sozinha
Essa noite quero dançar com mais alguém.

Entre na onda
Garoto, você tem que provar seu amor por mim
Fique de pé, yeah
Entre na batida
Garoto, o que será?

Vou te conhecer de um jeito especial
Isso não acontece comigo todo dia.
Não tente esconder, o amor não usa disfarces
Eu vejo o fogo queimando nos seus olhos

Só quando estou dançando consigo me sentir tão livre!
De noite eu tranco as portas onde ninguém pode ver.
Cansei de dançar aqui sozinha
Essa noite quero dançar com mais alguém

Dê vida à sua fantasia aqui comigo
Apenas deixe a música te libertar
Toque meu corpo e mova-se no tempo
Agora sei que você é meu

Entre na onda..."


quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

"Le gymnopédiste", a juventude de Satie

  A seguir traduzirei um resumo do artigo escrito pelo pianista sueco Olof Höjer sobre as composições de Erik Satie para piano entre 1884-1890. Este texto traz fatos da juventude de Satie, de sua época de estudante e primeiros anos de carreira, levantando hipóteses sobre a formação de sua personalidade artística.


                                          Santiago Rusiñol - retrato de Eric Satie
 
  "O primeiro grande período pianístico data de sua juventude e sua primeira estada em Montmartre. Nesse período escreveu 20 peças para piano, 5 canções, alguns esboços para quarteto de cordas, música de teatro para Joséphin Péladan e uma pequena peça orquestral, mais tarde reutilizada como penúltimo movimento em Trois morceaux en forme de poire para duo de piano.
  Sua vida pessoal era um tumulto, seus estudos no conservatório falharam, enquanto ele econtrava um novo interesse pelo esotérico. Através de artistas e escritores ele conheceu a atmosfera que permeava a vida boêmia dos cafés de Montmartre na Belle époque.
  Nos seus dias de juventude em Honfleur duas pessoas foram importantes para seu futuro desenvolvimento: seu tio Adrien Satie e seu primeiro professor de música Vinot, organista da igreja de Saint-Léonard. Seu tio, com quem passava muito tempo, parecia ser um homem muito excêntrico. Vinot, que recebera sua formação na École Niedermeyer em Paris, a escola mais famosa para músicos de Igreja na segunda metade do séc. XIX, começou a ensinar Satie em 1874. Provavelmente através dele Satie conheceu o canto gregoriano, cujas características estão presentes em praticamente tudo que compôs entre Ogives, em 1886 e Socrate, em 1918. Vinot não só tocava na igreja como também compunha algumas valsas lentas para uma orquestra em Honfleur. Além disso o próprio pai de Satie era compositor amador de canções de cabaret e sua madrasta, segunda esposa de seu pai, também compunha música de salão para piano. Eis os dois pilares da criação musical de Satie já tomando lugar em sua vida na década de 1870: o canto gregoriano e a música ligeira.
  Satie buscava a companhia de escritores e atristas ao invés de músicos.

  Sua primeira composição conhecida é um allegro para piano entitulado "Honfleur, 9 de setembro de 1884", com apenas 9 compassos, cerca de 20 segundos de duração. O pesquisador Laurent de François mostrou que é baseada em uma música popular.

  Entre suas primeiras obras publicadas estão duas valsas de salão, suplementos de uma publicação de seu pai. As frases e baixos triviais, frequentemente repetidos em torno dos acordes básicos são típicos da música de salão da época, mas o sentimentalismo do estilo é evitado.

  Ogives
  Em 1886 Satie conheceu o poeta José Maria Manuel Contaime, nascido na Espanha e 10 meses mais jovem. Sua amizade, que começou como uma espécie de simbiose artística, continuou no séc. XX. Contaime de Latour, nome artístico pelo qual se chamava, teria seus poemas certamente esquecidos se Satie não os tivesse usado em sua música. Provavelmente foi o poeta que introduziu Satie às obras do escritor esotérico Joséphin Péladan, talvez influente na devoção do músico pelo misticismo medieval, mas deve-se dizer que tal esoterismo era típico do período.
  Ao invés de praticar piano ele ficava sonhando sob os arcos da Catedral de Notra Dame, ou na biblioteca lendo livros de arte gótica.

Ele aprofundou seus estudos em canto gregoriano e compôs quatro pequenas peças para piano chamadas Ogives. Elas podem ser descritas como uma paráfrase do canto litúrgico e devem ter sido incompreensíveis para quem as ouviu. Confusamente parecidas entre si, como se Satie tivesse composto a mesma música de maneiras diferentes (técnica a que mais tarde retornou), seguem o mesmo padrão no uso de blocos estáticos sem nenhuma conexão com a música normal para piano da época. "Melodias criadas no estilo místico-litúrgico tão amado pelo autor, recebendo o sugestivo título de Ogivas," como ele mesmo descreveu-as na época de sua publicação, em 1889, quando já vivia em Montmartre.

  Trois Sarabandes
  Em setembro de 1887, depois de ter composto Ogives e uma série de canções sobre poemas de Contaime de Latour (Elégie, Les anges, Les fleurs, Sylvie e Chanson), escreveu três sarabandas. Agora Satie deu as costas para o organum da Idade Média e criou música de um caráter de dança solene. Nessas Sarabandes percebe-se, com mais clareza do que em Ogives, o crescimento do curioso método composicional que levará a uma complexidade singular em certos trabalhos seus. Seções curtas se relacionam, são repetidas, espelhadas e assim por diante, criando uma estrutura como a de um mosaico ao invés de um desenvolvimento contínuo. Satie está encontrando seu caminho para o seu espaço musical, onde tudo já existe, circulando em torno de si. As 3 Sarabandes também ficaram guardadas, sendo publicadas em 1911, quando Ravel e Les six mostraram interesse nas primeiras obras de Satie. Neste contexto, o jovem compositor Roland-Manuel escreveu sobre as sarabandas: "Aqui estão três pequenas peças escritas com uma técnica harmônica sem precedentes em uma estética inteiramente nova, instituindo uma atmosfera particular, uma mágica sonora totalmente original."

  Gymnopédies
  Em algum dia de dezembro de 1887 Satie foi apresentado ao encanador/poeta Vital Hoquet no Chat Noir, de longe o mais famoso dos cabarets artísticos e literários de Montmartre. Se apresentou como um Gymnopédiste, ninguém sabe por quê. Costuma-se pensar que encontrou inspiração em um poema de Latour, impressos com a música da Gymnopédie nº1 em 1888, mas deixadad de lado em edições posteriores: (tradução do original)
Oblíqua e cortando a sombra uma torrente deslumbrante
Corria em fluxo de ouro sobre a laje polida
Onde os átomos de âmbar ao fogo se refletiam
Misturaando sua Sarabanda à Gymnopaedia  
  Mas Satie pode ter simplesmente achado a palavra em um dicionário da época. Em um deles seu significado é definido como "uma dança acompanhada de canto executada por garotas espartanas nuas". A palavra de sonoridade estranha com ar de sensualidade e exotismo pode ter interessado Satie e Latour. Os pesquisadores de hoje concordam que Gymnopaedia era uma celebração a Apolo na antiga Esparta onde homens de todas as idades dançavam, não nus, mas desarmados.
 
 
 

 


 

domingo, 3 de janeiro de 2010

Feliz 2010!

  Finalmente ano novo! Comecei 2010 com uma sensação tão boa, com um entusiasmo que não me lembro de ter sentido antes. Me sinto vibrando, é uma nova fase, de poucos planos. "Poucos planos?". Bem, é mais ou menos assim:


  Vinha me sentindo desanimado, perdido, me perguntando qual o sentido de cantar. Além disso, tive laringite por um mês, forcei e apareceu uma pequena lesão que graças a Deus sumiu rápido, depois de um mês de silêncio e fono. Mas enquanto cantava na última prova da faculdade algo aconteceu. Num momento de conexão eu reencontrei o primeiro impulso responsável por eu ter decidido ser artista e que sem perceber perdera no caminho: o prazer de cantar! É verdade, eu quis tanto ser perfeito, ter uma voz linda, que esqueci do que realmente importa. Auto-cobrança, perfeccionismo, vaidade e o sonho de cantar perdeu o sentido. Para que escolher dedicar minha vida a algo que é um tormento?  Lembrei de quando a música ainda me arrebatava. A gente vai aprendendo a funcionar no automático.

  Poucos dias depois iniciei este projeto e comecei a fazer o blog. Não parei muito para pensar se vai dar certo, se é possível, não planejei muito, não. Simplesmente comecei a teclar. Logo eu, que sou do tipo que nunca coloca as idéias em prática, ficar em casa sonhando é mais seguro. É tão boa a sensação de redescobrir o impulso e poder ficar com ele, transformando-o em ação, sem dilui-lo com muitos pensamentos e planos. Isso faz a alma voltar a vibrar. Nem importa se vai dar certo ou não.
  Nossa, me lembrei de Hamlet... bem, sem o elemento trágico. É ridículo querer comparar a minha vida com a profundidade dessa peça, mas vou pegar o livro e fazer uma citação, é tão lindo!

"Quem aguentaria os fardos,
Gemendo e suando uma vida servil,
Senão porque o terror de alguma coisa após a morte-
O país não descoberto, de cujos confins
Jamais voltou nenhum viajante- nos confunde a vontade,
Nos faz preferir e suportar os males que já temos,
A fugirmos para outros que desconhecemos?
E assim a reflexão faz de todos nós covardes.
E assim o matiz natural da decisão
Se transforma no doentio pálido do pensamento.
E empreitadas de vigor e coragem,
Refletidas demais saem de seu caminho,
Perdem o nome de ação."

William Shakespeare, Hamlet


Feliz 2010!!!


Foto de Laurence Olivier como Hamlet



                                         

domingo, 27 de dezembro de 2009

Manual para apreciar Satie

 
  A obra ao lado é da fotógrafa contemporânea americana Barbara Kruger.
"Compre-me, vou mudar sua vida". 

  Abaixo, uma fotografia de Margaret Bourke-White, da época da depressão americana.
"Não há caminho como o caminho americano".

  Me interessei por estas obras. De maneira acessível ironizam as dinâmicas da nossa sociedade. No carro que percorre o caminho/modo de vida americano há espaço para todos? O quanto não compramos passivamente o discurso consumista?

 Porém, pode ser que um dia alguém pergunte à fotógrafa e ela diga que tais idéias nem passaram por sua cabeça! Ih, será que eu errei?

 Ah, é por isso que adoro arte! Jogos com significados, sem conclusão, sem vencedor, onde ninguém tem razão. 

 


A seguir, vou falar um pouco de um mestre nesse jogo: o compositor francês Eric Satie.


 
  Ao conhecer suas Gymnopédies (peças para piano compostas em 1889) tive a impressão de tê-las ouvido em trilhas de filmes. Nunca pesquisei à respeito, mas fiz essa associação na hora. Essas pequenas peças para piano são tão charmosas, sua delicadeza discreta me comove.

  Falando em trilha sonora, se fosse um cineasta usaria uma Gymnopédie em uma cena como a última da película mais recente do Almodóvar, quando o filme em que a personagem de Penélope Cruz, aspirante à atriz, tinha atuado anos antes é postumamente reeditado. O desfecho já concluído, o tempo é suspenso e as cenas reeditadas mostradas sem pressa ao espectador. E justamente este momento de imobilidade, onde nada acontece, me pareceu ser o de maior força dramática do filme inteiro. A monotonia pode ocultar uma sensibilidade comovente, muda, fugidia. Uma sensibilidade que ouço (ou imagino ouvir) em Satie.
  Ao conhecer um pouco mais do contexto cultural no qual sua música estava inserida as Gymnopédies adquirem nuances de ironia e duplos sentidos. Hoje ouço nestas peças uma dubiedade fascinante. Elas são tão bonitas, mas essa beleza pode soar tão subversiva, tão cheia de outros significados. A simplicidade, neste caso, talvez ironize os clichês da tradição musical européia do início do séc. XX. Em meio a debates inflamados, vanguardas anunciando a morte de um sistema, rupturas, uma geração de jovens compositores franceses me parece debochar das pretensões de uma música que se leva à sério demais.
  Porém, sou um homem do séc. XXI. Atualmente, uma trés charmante canção de Satie, como "Tendrement",  não tem mais um caráter ousado, crítico, mesmo que eu saiba seu contexto original. Os contextos mudam e os significados também, constantemente. Será que essa ambiguidade não foi intencional? Talvez ele tenha escolhido não se decidir. A melancolia da Gymnopédie nº1 soa tão sincera que chego a duvidar de seu caráter irônico!Tendrement pode ser uma inteligente crítica ideológica às incongruências e clichês de um vocabulário musical...


...ou só uma terna canção de café!





"Um amor terno e puro para que você se lembre,
Aqui está meu coração, meu coração trêmulo, meu pobre coração de criança.
E aqui está, pálida flor, que você fez desabrochar,
Minha alma que morre por você e por seus olhos tão doces."